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Sobre cães e Coelhos

Sobre cães e Coelhos

Há uma interessante narrativa que, segundo alguns, teve como protagonista o pensador grego Epicuro. Conta-se que ele foi convidado a fazer uma palestra sobre educação. Na hora determinada, o filosofo chegou trazendo dois cães e dois coelhos.


Com as portas fechadas, Epicuro soltou o primeiro coelho. O animal ficou agitado correndo de um lado para outro até que se aquietou num canto. Então foi solto o primeiro cão. Este, rapidamente partiu em direção ao pequeno e indefeso animal. Em poucos instantes, o coelho estava completamente estraçalhado pelas garras e pelos dentes do cão, ante os olhos estupefatos dos espectadores da palestra. Epicuro, calmamente, afirmou: “Isto é um homem não educado”. Em seguida, prendeu o cão feroz e soltou o segundo coelho. Este também, após agitar-se de um lado para o outro, refugiou-se num canto da sala. O segundo cão foi solto. Localizou o coelho, partiu para cima dele e ... começou a brincar com ele! O coelho parecia muito à vontade para subir no cão e até ficar mordiscando sua orelha! Todos na sala estavam admirados e curiosos para ouvir o que Epicuro tinha a dizer sobre aquilo. O velho mestre disse,então, calmamente: “Este é um homem educado. O homem educado aprendeu a conviver”.

Não sei até que ponto esta narrativa é verídica. Mas aqui em minha igreja conheço uma irmã que possui um coelho e um cão, Phipha e Phepho. Tenho uma foto deles em meu computador. Cada vez que vejo a foto fico pensando em como nós, mesmo com todo nosso ensino e aprendizado das verdades do evangelho muitas vezes não aprendemos a viver como irmãos. Mesmo com todos os códigos e regimentos criados, todas as normas de conduta ensinadas, agimos como a primeira dupla de animais da narrativa. Ao mesmo tempo, percebo que a segunda dupla talvez tenha muito a ensinar ao povo de nossas igrejas, a muitos pastores e, principalmente, a mim mesmo. Ocasionalmente, vejo em minhas ações que às vezes represento o coelho e em outras sou o cão feroz; movido pelo instinto e pela agressividade, estraçalhando e devorando.

Essa agressividade foi identificada por Augusto dos Anjos em seus Versos Íntimos: O homem, que, nesta terra miserável, mora, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera.

Por que em determinados momentos nos tornamos fera? É decepcionante ver como, apesar de toda nossa ética, leis morais e pregação, continuamos quebrando códigos um após outro, negando o nome dAquele que pregamos. O poeta cunhou seus versos na observação da realidade que vivia e da angústia e desespero que sentia. Mas nós somos “em tudo atribulados, mas não angustiados” (II Coríntios 4.8). Torna-se ridiculamente paradoxal, para nós, a constatação de feras entre aqueles que levantam a bandeira da fé e do amor. Que tristeza as muitas vezes em que me tornei ou fui vítima de feras dentro da igreja!

Fico pensando que entre Phipha e Phepho não foi estabelecido um código de ética, não houve um contrato assinado; eles simplesmente aprenderam o respeito e a afetividade. Tornaram-se mestres para nós, humanos, com todas nossas normas, na arte da convivência.

A Bíblia diz que a raiz das guerras e contendas está nos nossos desejos. Isso nos remete ao cão que aprendeu a ver no coelho muito mais que uma boa refeição, mas um bom amigo. Talvez seja isso que nos falte, termos uma visão respeitosa do outro. Eu como pastor respeitando o ministério e as ovelhas do colega, eu como discípulo aprendendo a caminhar a segunda minha, aprendendo a largar também a túnica, aprendendo a descobrir caminhos de paz em lugar de apenas impor a minha vontade. Outro motivo para nossa falta de ética sejam as agressões sofridas. Antonio Vieira em seu sermão da sexagésima, ao comentar a semente que caiu sobre a terra seca lembra que terra dura é terra pisada, terra que foi pisada pelos homens, ou seja, corações pisados e magoados só sabem responder com dureza e rispidez. É triste a argumentação que Paulo faz em Gálatas 5.15 quando diz: “Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos”, de alguma forma passa-nos a imagem de uma igreja que havia se tornado um campo de cães devoradores. O império do ego em nossas vidas faz brotar o que de pior existe e desta forma a igreja perde rapidamente a sua essência de ser um lugar de respeito e edificação.

O caminho inverso deve ser percorrido, mesmo a um alto preço. É uma tarefa educativa. Exige, como todo aprendizado, disciplina e persistência. Volta e meia nos encontramos quebrando nosso próprio código de conduta a nível pessoal: comemos o que não devíamos, falamos o que não devíamos e gastamos nosso tempo de maneira leviana. Em seu livro: “O impostor que vive em mim”, Brennan Manning nos adverte para os momentos em que mentimos para nós mesmos simulando comportamentos e sentimentos. Para ele, essas imposturas pessoais são as raízes da falta de respeito pelo semelhante em outras dimensões:” Se dissimularmos as feridas por medo e vergonha, as trevas dentro de nós não podem receber luz nem iluminar os outros”.

Podemos criar e impor todos os códigos e ética e leis morais que nossa retórica puder estabelecer e defender, mas tudo isto será inútil se não aprendermos a maravilhosa lição de Phipha e Phepho.

 

Pr. Eliabe Oliveira e Silva

Igreja Batista do Santarém

Princípios Bíblicos para Educação Infantil

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Um dos grandes desafios da Igreja contemporânea é desenvolver um ministério de educação infantil bem sucedido, cujo objetivo maior é o de transmitir princípios bíblicos que levem as crianças a desenvolver um relacionamento íntimo e real com Deus.

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O Evangelho diante da Crítica

O Evangelho diante da Crítica

Este artigo se propõe a refletir através de um pensamento teológico e ético às duras críticas que têm sido feitas ao ensino e propagação do Evangelho.


É importante que se perceba que os evangélicos aqui no Brasil se caracterizam por duas coisas significativas: O Estudo e a proclamação da Bíblia. Isto é, a pregação da Palavra de Deus e o Ensino da mensagem Bíblica, pois esta prática deve fundamentar a verdade de todos os fiéis. Só que percebemos que a Igreja Evangélica em si tem sido duramente criticada por vários segmentos da nossa sociedade e muitas vezes com razão, pois os Movimentos Neo-Pentescostais tem invadido quase todas as avenidas, cinemas antigos do nosso Brasil com uma mensagem que realmente não tem nada haver com a sublimidade da mensagem simples, profunda e gratuita que é o cerne do Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Entendemos que esta busca é muitas vezes produzida pelo desespero das pessoas diante do quadro social brasileiro ser tão dramático, pois a realidade nacional é lastimável e tem empurrado pessoas para estas Igrejas proclamadoras da cura instantânea, do milagre imediato, de uma barganha financeira vergonhosa que certamente descaracteriza a essência real do Cristianismo puro e simples.

O questionamento dos que tem criticado o conteúdo do Evangelho, as suas verdades e implicações, devem levar os evangélicos a uma reflexão seria, mas não extremada nem muito menos destrutiva, mas algo que venha a ser construtivo para todos os segmentos da nossa sociedade, promovendo assim uma visão equilibrada e saudável da mensagem em nome de Cristo.

Mas precisamos também refletir na pluralidade das experiências religiosas no Brasil. São muitas Igrejas, existe um sincretismo religioso assustador, é difícil entender quem é quem, e o nosso desafio é compreender as manifestações que podem ser consideradas como um fato social existente na nossa Nação gerado pela falta de uma estrutura de saúde justa, por uma economia massacrante que sufoca as pessoas e que as leva para esta busca do divino como solução hoje para as suas dores, e sendo assim estas pessoas diante do seu desespero correm em busca do milagreiro de plantão do momento causando tanta indignação da sociedade em geral com toda a razão.

Interessante é que no senso comum Deus é aquele que ajuda, abençoa, ilumina, acompanha e protege e sendo assim Deus é um objeto de petições e desejos capaz dos impossíveis. É um Deus prático. Mas nem sempre a sua vontade coincide com a do fiel, que deve aceitar, sem reclamar, o que lhe acontece. Muitas vezes acontecimentos desagradáveis são interpretados como castigo de Deus, que é capaz de perdoar e curar, dependendo do cumprimento de deveres e obrigações.

É muito pertinente a observação de Sérgio B. de Holanda, Raízes do Brasil que diz: “A compreensão da relação com Deus é direta, não necessita de intermediários, daí o próprio clero ser dispensável. Deus é amigo, é próximo. Surge com isso a aversão ao rito e um apego ao culto sem obrigações nem rigor, intimista e familiar. A visão de Sérgio B. de Holanda é na verdade um ponto real e equilibrado do que é o Evangelho. Pois o Evangelho é vida entregue por amor, desejo de servir com gratidão pela pessoa que Deus é “amigo e próximo” e não um discurso ideológico como é citado que o protestantismo está ligado ao impacto ideológico, cultural, econômico e político, que se inicia no século XIX e se mantém até o presente. O protestantismo ingressou em nosso mundo latino americano como apanágio religioso da democracia liberal e a livre empresa capitalista, o “aroma religioso” do mundo burguês.

Pensemos ainda que na visão de Rubéns Alves, quando ele se refere ao Brasil, ele condena o “Protestantismo da Reta Doutrina”, que ele caracteriza como um tipo de fé exclusivista individualista, cuja única preocupação é uma lista de vícios pessoais ( mentira, fumar, sexo, ingerir álcool ) fundamentada em princípios eternos e absolutos. Para Rubéns Alves, a obsessão pela verdade e a intolerância dos protestantes conservadores em relação a outros grupos não oferece saída do status quo injusto.

Pensando sobre esta realidade instituída no Brasil e fruto de tantos pensamentos e questionamentos, vamos refletir um pouco sobre o penúltimo livro de Emile Durkheim As formas elementares da vida religiosa pois ele percebe a religião como um sistema e ele estabelece uma relação de crença e rito. Ele cita “que o aspecto característico do fenômeno religioso é o fato de que ele pressupõe uma divisão bipartida do universo conhecido em dois gêneros que compreende tudo o que existe que os interditos protegem e isolam; as coisas profanas aquelas as quais os interditos se aplicam e que devem permanecer à distancia das primeiras” (DURKHEIM,1912,29).

Para Mirela Berger, “existe uma necessidade de se estudar a religião mais simples e primitiva que se conheça atualmente. Durkheim dirá que isso é necessário para se compreender a essência da religião. A idéia é que nas religiões mais avançadas como, por exemplo, o Cristianismo, a religião aparece como um amálgama de crenças e ritos muitas vezes emprestados de diversas religiões, tornando desta forma muito difícil a apreensão do que é característico da religião”.

Outro gigante do pensamento clássico sobre a Religião é Max Weber que em sua análise sobre a relação protestantismo-modernidade, weber concluiu: quando o asceticismo saiu dos mosteiros e foi levado para a vida profissional, passando a influenciar a moralidade secular, contribuiu “poderosamente para a formação da moderna ordem econômica e técnica” este protestantismo ascético remodelou o mundo e os bens materiais, que eram o seu fim, assumiram força sobre os homens. Para Weber, porém, com o triunfo do capitalismo, o espírito religioso “safou-se da prisão”, e o capitalismo, vencedor, não careceria mais dele.

Isso pode ser observado nos países protestantes, onde a procura da riqueza está despida da religião e cada vez mais associada com “paixões puramente mundanas”. O pensador termina afirmando: “Ninguém sabe ainda a quem caberá no futuro viver nessa prisão”.

Comparando os pensadores Emile Durkheim e Max Weber, poderemos perceber que ambos desenvolvem pensamentos distintos sobre Religião. Durkheim, pela sua forma  mais metodológica, ele percebe a força dos ritos para continuação e sobrevivência das crenças, ele apresenta o ritual, a cerimônia que seria o “amálgama” para que se tome forma a religiosidade do indivíduo. Em contra partida Max Weber direciona a sua atenção para o fato de que a hipocrisia eclesiástica, a religiosidade sem comprometimento levaria as pessoas a se liberarem do seu interior para uma pratica pautada no ter e não no ser que é o cerne da vida religiosa. Ambos os pensadores devem ser observados e estudados com total respeito e reconhecimento, pois quase de forma profética viram o que se tornou o Evangelho, algo que parece que tem que ser comprado ou experimentado diante de alguma forma exclusiva de algum apóstolo de plantão.

O que fazer diante destas coisas? Diante de tantas promessas que escravizam, de tantos ritos que nem o próprio Jesus fez ou solicitou para que fizessem. Diante da troca vergonhosa de dinheiro, terrenos doados para manutenção na verdade de empresas que não tem nada a ver com o espírito do Evangelho. O que fazer diante de uma realidade imediatista fruto também de uma sociedade imediatista, onde tudo queremos de imediato, onde ninguém mais para escrever uma carta, somos a geração do MSN, das mensagens curtas e muitas vezes sem sentido para aqueles que não estão familiarizados com a tal linguagem. Interessante é que o mundo indicado por Weber, que está sendo vivido hoje, demonstra, por meio da cultura evangélica, que o protestantismo é que está preso ao espírito do capitalismo. Quando os evangélicos brasileiros inserem nas suas praticas religiosas aspectos profanos, integrantes da modernidade, e estes passam a produzir sentido e forma de viver a fé e relacionar-se com o sagrado, revelam como esta nova ascese protestante evangélica se revela uma homologia do sistema socioeconômico em curso.

Precisamos romper com esta graça barata, cheia de ofertas e exigências, que muitas vezes estão distantes do trono e dos princípios fundamentais e voltar o nosso olhar para a simplicidade do Evangelho de Jesus que nunca, pois grilhões nas pessoas nem muito menos ritos para obtenção da eternidade. Jesus pelo contrário, aliviava ao aflito, alimentava o faminto e dava esperança aquele que já tinham perdido toda força e dignidade na vida. Ele realmente abraçou aqueles que ninguém queria chegar perto, foi amigo de pecadores, leprosos, meretrizes, rompendo com todo dogma e preconceito etnocêntrico que vivia a nação de Israel em seu tempo. Esta é a essência real do Evangelho que dá significado e que infelizmente se descaracterizou pelo engano e por pessoas inescrupulosas, os demagogos de plantão que sufocam e coagem na força e que por pau e pedra querem legitimar o seu poder com manifestações sobrenaturais para continuar escravizando os seus fiéis para continuar explorando a fé de gente boa para simplesmente continuarem com seus jatinhos de luxo, suas mansões e viagens a Europa em nome da fé, promovendo assim tantas críticas contraria e justa.

Autor: Pr. Sandro Eugênio

 

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