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ARTIGO

O pastor e sua origem social

 

De acordo com o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) sobre América Latina e Caribe, de julho de 2010, o Brasil tem o terceiro pior índice de desigualdade no mundo. Na América Latina, o Brasil empata com Equador e só perde para Bolívia e Haiti em relação à pior distribuição de renda.

Essa desigualdade tem implicações na educação. A partir de indicadores como o ENEM e o SAEB, além de pesquisadores da área da educação como Cunha (1981) e Décio Saes (2008), é possível notar que, no Brasil, durante todo o percurso escolar, o aluno é submetido a uma série de seleções desiguais marcadas pela égide da sua origem social, fazendo com que o processo seletivo seja absolutamente desigual.

O sistema de educação no Brasil é dual e a desigualdade educacional perpassa não somente a dualidade rede pública/privada, mas também rede pública/pública. Em outras palavras, no Brasil, tem acesso à melhor educação formal, seja na rede privada, ou na rede pública, quem tem origem social privilegiada, sujeitos das classes média e alta. Nas palavras de Bourdieu & Passeron (1964, p. 11), “o sistema escolar opera, objetivamente, eliminando quase totalmente as classes mais desfavorecidas”.

Esse triste quadro tem desdobramentos na formação teológica e destino social de pastores? A origem social dos sujeitos influencia na sua formação teológica? Parece-me que sim. Vejamos algumas perguntas que nos fazem pensar a respeito: (1) Qual é a origem social dos seminaristas que estão nos principais centros de formação teológica no Brasil? (2) A origem social é fator de seletividade para os principais Seminários? (3) Qual é a origem social dos sujeitos que fazem parte dos principais congressos brasileiros de teologia? (4) Qual é a origem social dos pastores que ocupam os mais elevados cargos de suas denominações?

Obviamente para responder a essas perguntas seria necessária uma pesquisa mais acurada. Entretanto, não é difícil presumir que os sujeitos de origem social mais privilegiada são aqueles que têm acesso aos melhores centros de formação teológica, frequentam os melhores congressos brasileiros de teologia e ocupam os cargos mais altos de sua denominação.

Diante disso, iniciativas que contribuem para a quebra da perpetuação desse ciclo perverso na sociedade brasileira, são muito bem vindas.

No ano de 2011 eu conheci o Centro de Desenvolvimento de Líderes (CDL). Trata-se de um ministério da Primeira Igreja Batista de Atibaia, SP, que oferece cursos de excelência para pastores e líderes.

Um desses cursos é o “Pregue a Palavra”, que capacita pastores e líderes para o ministério da pregação expositiva. Ele tem duração de 4 anos, com nível de pós-graduação, e funciona em regime modular. Alguns detalhes do curso merecem destaque: (1) É totalmente gratuito; (2) Funciona na região do aluno, sendo que são os professores que se deslocam; (3) O aluno recebe todo o material (apostilas e livros) gratuitamente; (4) A hospedagem e alimentação durante o curso também é gratuita;

Já são mais de 1100 pastores e líderes em todo o Brasil sendo atendidos por esse programa.

Desde que conheci esse ministério tenho me envolvido diretamente. Recentemente ministrei um módulo em Juazeiro, BA. O grupo é constituído de pastores e líderes que estão trabalhando em localidade de difícil condição material de existência. Um deles trabalha em uma comunidade Quilombola, há 270 km de Juazeiro, BA. Esse homem afirmou o seguinte: “Sempre sonhei em participar de um curso dessa qualidade, mas obviamente nunca tive condições. Graças a Deus pela iniciativa de vocês”.

Também estive em Terezina, PI. O núcleo dessa cidade é um dos maiores, são 4 turmas, com 80 pastores e líderes ao todo. Um deles testemunhou: “Agradeço aos irmãos por ter vindo aqui nos abençoar. Eu já tinha algum contato com a pregação expositiva, mas nunca nessa profundidade. Sinto-me estimulado a, como no livro de Neemias, corrigir meus erros ministeriais”.

Diante disso, dou graças a Deus por iniciativas como essa que, diante da triste realidade da desigualdade social do nosso país, oferece uma resposta positiva com o oferecimento gratuito de formação de qualidade para obreiros menos favorecidos economicamente.

 

Pr. Nelson Leite Galvão
Gerente Regional do CDL/Nordeste;
Professor do Seminário Teológico Batista Potiguar;
Mestre em Educação (Puc-SP);
Pós-graduado em administração escolar;
Graduado em Teologia e História.

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